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Filmes realizados por estudantes da UFPE são premiados no Concurso Curta Ecofalante

Curta de Ziel Karapotó ganhou o troféu Ecofalante e R$ 4 mil de prêmio e foi o grande vencedor da noite

Dois filmes realizados por estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foram premiados no Concurso Curta Ecofalante na última quarta-feira (16): “O verbo se fez carne”, de Ziel Karapotó, do curso de licenciatura em Artes Visuais, recebeu o prêmio de melhor curta pelo júri, enquanto “Hoje sou Felicidade”, de João Luís e Tiago Aguiar, do curso de Cinema e Audiovisual, levou o prêmio do público. O curta de Ziel Karapotó ganhou o troféu Ecofalante e R$ 4 mil de prêmio e foi o grande vencedor da noite.

Fotos: Divulgação

Curta foi realizado por equipe de indígenas estudantes da UFPE

De acordo com Ziel, indígena da etnia Karapotó, o filme, que já participou de festivais nacionais e internacionais, é uma realização de uma equipe formada exclusivamente por indígenas: além dele, fazem parte da produção Tata Quintero, indígena oriunda da Colômbia, e Karkará Tunga-Tarairiú, indígena do povo Tunga-Tarairiú, rama da etnia Xukuru. Durante a concepção do filme, em 2018, todos eram estudantes da UFPE – após sua conclusão, Tata Quintero já havia terminado o curso de Cinema e Audiovisual.

“A concepção do filme se deu pelos atravessamentos e inquietações do meu olhar sobre as relações sociopolíticas e culturais emergentes na minha comunidade em especial, mas que também se estende às demais comunidades e povos indígenas”, explica Ziel. “Atualmente, essas relações quase sempre são alicerçadas no etnocídio e genocídio sobre nós, povos originários, que nos invisibiliza ou apaga diante da sociedade, processos e equipamentos que se atualizam desde a invasão deste território”, destaca.

O artista afirma que buscou expressar a potência da existência e resistência dos corpos, ancestralidade e saberes indígenas diante disso tudo. “As mazelas advindas com a colonização perduram até os dias de hoje: a perda das línguas originárias, principalmente no que diz respeito a nós, povos indígenas no Nordeste; a imposição dos valores cristãos em detrimento dos nossos; a posse sobre nossos territórios, etc.”, exemplifica Ziel, que é originário da comunidade Terra Nova, em Alagoas.

“O filme reflete também a ampliação do meu olhar sobre mim mesmo, sobre como se configuram as culturas e identidades indígenas da América Latina em seus múltiplos contextos na contemporaneidade, levando em consideração as inúmeras camadas”, ressalta. Para ele, entrar na universidade foi um passo importante para essa ampliação do olhar. “Precisamos ocupar cada vez mais esse espaço e, consequentemente, poder estudar e pesquisar junto com outros indígenas e não indígenas sobre as nossas expressividades”, diz.

Desfazer uma imagem estereotipada acerca dos povos indígenas é um dos objetivos da obra. “‘O verbo se fez carne’ é parte do meu acreditar sobre o meu fazer poético, onde procuro construir narrativas imagéticas que possam difundir múltiplas narrativas sobre nós, povos indígenas, em especial sobre os povos indígenas que vivem no Nordeste, por muitas vezes fugirmos dos estereótipos que predominam no imaginário da sociedade, consequentemente colaborando na propagação de uma arte decolonial”, destaca.

Ziel considera uma surpresa a boa repercussão que o filme vem tendo. “Existe possibilidade de um mundo em que, nós indígenas, possamos produzir e difundir nossas próprias narrativas, indo além de um protagonismo, onde nos tornamos autores de nossas histórias, consequentemente, fortalecendo nossas lutas, existências e resistências, mostrando para os não indígenas outras alternativas de estar e viver no mundo em equilíbrio com a natureza e diferenças étnicas, religiosas, de identidade de gênero, etc.”, afirma.

Segundo o júri do Concurso Curta, composto por Felipe André Silva (cineasta e escritor), Gabriela Yamaguchi (diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil) e Kênia Freitas (professora, crítica e curadora de cinema), o filme foi escolhido “por abordar de forma poética e fabular temas centrais ao cinema brasileiro como a colonização e a perseguição ainda permanente dos povos indígenas, com uma experimentação formal e performática precisa e incisiva”, segundo o site do evento.

BIOGRAFIA – Estudante do curso de Licenciatura em Artes Visuais, Ziel faz parte do Grupo de Pesquisa Ciência e Arte indígena no Nordeste, coordenado pela professora Renata Wilner, e é extensionista no Grupo de Estudos e Pesquisas em Autobiografias, Racismos e Antirracismos na Educação (Gepar), coordenado pela professora Auxiliadora Martins. Trabalha no campo das artes visuais, performance, instalação e audiovisual e acredita na arte indígena como resistência anticolonial. "O verbo se fez carne" é seu filme de estreia.

O curta já recebeu prêmios como “Melhor Curta Indígena’ no 5° Cine Tamoio – Festival de Cinema de São Gonçalo (RJ), “Destaque em expressão poética” no 21º Festival Brasileiro de Cinema Universitário, em Niterói (RJ), “Melhor filme experimental” pelo júri oficial do 5º Toró - Festival Audiovisual Universitário de Belém (PA), “Melhor Curta-Metragem” pelo júri oficial no 18º Noia Festival do Audiovisual Universitário, em Fortaleza (CE) e “Melhor Roteiro” no 2º Festival Tela Universitária de Cinema, em Salvador (BA).

Aldir Felicidade foi 14 vezes campeão de desfile das escolas de samba

PÚBLICO – O vencedor do prêmio do público, o curta “Hoje sou Felicidade”, dos diretores João Luís e Tiago Aguiar, tem como protagonista Aldir Felicidade: negro, cadeirante, periférico e intérprete de samba 14 vezes campeão de desfile das escolas de samba no carnaval de Recife. De acordo com Tiago Aguiar, o curta-metragem foi realizado como avaliação para as disciplinas “Som no audiovisual” e “Cinematografia”, do curso de Cinema e Audiovisual da UFPE.

“O Concurso Curta Ecofalante trouxe uma novidade nesta edição. Para participar, os filmes inscritos precisavam abordar temáticas relacionadas a, pelo menos, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030 – são 17 objetivos que abrangem temas como erradicação da pobreza, saúde de qualidade, combate às mudanças climáticas e igualdade de gênero”, explicam os diretores. A mostra foi transmitida on-line de forma gratuita até domingo (20).

O curta também já recebeu outros prêmios, como os de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro no VII CineVirada – Festival de Cinema Universitário da Bahia, realizado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira (BA); de melhor filme na escolha do público da Mostra Nordeste do Festival de Cinema de Caruaru; e de melhor filme no Cine Creed, no Recife. Participou também de diversos outros festivais em cidades como Uberlândia (MG), Trancoso (BA) e Pinhais (PR).

ONG – A Ecofalante é uma ONG que atua nas áreas de cultura, educação e sustentabilidade. Entre suas ações, estão produzir filmes, documentários e programas de televisão de caráter cultural, educativo e socioambiental; fazer formação de professores, exibições e debates em escolas, universidades e aparelhos culturais; e realizar o mais importante evento audiovisual sul-americano dedicado a temas socioambientais: a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Data da última modificação: 22/09/2020, 17:31